sábado, 2 de janeiro de 2010

(des)construindo o Rio de Janeiro

FELIZ ANO NOVO!

Depois de muitos dias afastada, retomo minhas postagens nesse canal de diversão e reflexão que fiz.

Nas últimas semanas, estive na cidade do Rio de Janeiro - cidade, esta, que conheço relativamente bem, por passar muito tempo nela e, também, pela minha relativa facilidade em guardar nomes, locais, referências...
Antigamente, ir à cidade significava, a meu ver, encontrar com a família, rever alguns amigos e, quem sabe, fazer alguns passeios diferentes. Porém, nesse ano, sem algum motivo que eu saiba claramente qual é, já entrei no carro com olhar crítico - pensando, avaliando, refletindo.
Primeiramente, foi a estrada, o caminho. Em vez de dormir, como costumava fazer, fui observando as paisagens vegetais do caminho - os mares-de-morros, o vale do Rio Paraíba, a vegetação de cerrado, em alguns momentos, e de floresta, em outros. Enfim, fui praticamente estudando a geografia do local.
Chegando à cidade, a primeira observação que faço é sobre o trânsito: "Como a movimentação dos carros aqui é complexa!". Além do grande número de veículos nas ruas, eles são, em sua maioria, dirigidos por pessoas que querem estar à frente dos outros. Dificilmente um carro lhe dá passagem; quando veem um espaço livre, logo entram, sem esperar, muito menos pedir licença; os ônibus desprezam sua faixa preferencial e, quando chamados, param logo no meio da rua mesmo, de modo que o passageiro tem que correr, passando na frente dos carros que vêm, na tentativa de entrar no ônibus antes que o motorista se canse de esperar e resolva partir.
Entramos à direita após a rua Humaitá e estamos em Botafogo. De lá, passando pelo "Túnel Velho", chegamos ao famoso bairro de Copacabana. Mas o primeiro fator que noto ao chegar nesse bairro é que ele está policiado. São inúmeros carros do B.O.P.E., da recém-criada UPP e outras forças militares estacionados nas ruas, com policiais armados com seus fuzis, metralhadoras e algumas pistolas. Mas pra que seria tudo isso?
Ao chegar em casa, pego o jornal e leio que "finalmente, a polícia tomou os morros e se sobrepôs ao tráfico". Todos aqueles carros de polícia tinham um objetivo ali. Teoricamente, eles estariam em uma missão pacificadora da região do Morro dos Cabritos. Entender aquilo que via me levou a mais uma reflexão: Mas pra onde será que irão os traficantes? Se suas zonas de controle, os locais que eles dominam e onde vendem as drogas, as armas, onde ganham seu dinheiro, estão sendo dominadas, estão sendo tomadas deles. Como eles farão, de agora em diante, para terem garantido o poder que tiveram outrora? É algo a se pensar. Será que corremos mais risco deixando-os lá, ou tirando-os de lá? Será que ainda virão confrontos, tiroteios, lutas e tristezas?
Enfim, descendo a rua Siqueira Campos, são muitos os pontos a se notar - desde o velhinho com seu relógio de ouro e sua carteira no bolso, que anda com dificuldade, sendo constantemente atropelado, enquanto tenta carregar suas compras, até aquele grupo de crianças, em frente a um edifício de esquina, cheirando cola com cigarros na boca. Todas as visões que posso captar me trazem uma sensação de tristeza. Em nenhum outro lugar do mundo eu pude ver tão claramente essa mistura das classes sociais mais opostas e distintas que temos hoje. Em Copacabana, a riqueza, não só financeira, mas também intelectual, dos senhores e senhoras se mistura constantemente com a miséria daqueles que moram nas ruas, vivendo do vício e das esmolas, sejam estes adultos, idosos, crianças, ou mesmo bebês que já nascem fadados a viver nessa condição, a qual muito dificilmente será alterada.
Tudo isso tem um desfecho quando chegamos à linda Avenida Atlântica. Conhecida pelos ricos quiosques e hotéis, além do belíssimo calçadão, a Av. Atlântica é um símbolo internacionalmente conhecido do Rio de Janeiro - de dia, as famílias passeiam; à noite, as mulheres trabalham.

São tantos contrastes, ideias, reflexos. Muitas imagens ficaram guardadas na minha memória, desde o ano de 1992 até o ano de 2010, mas eu só as coloquei em palavras aqui. Não que essas palavras me façam entender ou esquecer as inúmeras imagens, os pensamentos e até os medos que aqui guardo, mas elas fazem parte de uma reflexão importantíssima sobre o que pode se tornar nosso país com o aumento da pobreza, da miséria, do costume de só enxergarem-se os iguais e com a disseminação do individualismo.

4 comentários:

  1. Soltar do seu coração essas ideias,deixá-las gravadas no papel,ajuda a suavisá-las!
    Gostei de ler.
    Tenho andado muito preocupada com os temporais por aí,no Brasil!!
    Oxalá passem rapidinho.
    Beijo.
    isa.

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  2. É engraçado ler algo que você escreveu te conhecendo tão bem, parece que eu ouço você falando cada uma dessas palavras. Ficou realmente muito bom, cada vez mais eu sei que você nasceu pra coisa e vai dar uma ótima jornalista!

    :D

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  3. Mariana
    Um retrato não só do Rio, mas do Brasil como um todo, com seus problemas, suas mazelas, suas dificuldadea, mas também com suas belezas... Um apanhado das preocupações de cada um de nós, escrito com coerência e com a sensibilidade de quem enxerga com a alma livre de isenções.
    Gostei muito.
    Beijos e uma ótima semana para você.

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  4. Mariana
    Gostei muito de suas reflexões e também da forma de seu texto, pois, como você sabe, eu adoro o Rio e, à medida que eu ia lendo, ia imaginando a cena, fosse ela boa ou não, alegre ou triste. Assim, você realmente consegue passar suas idéias de forma clara e objetiva transmitindo também sensibilidade ao tratar de situações delicadas ligadas aos problemas desse nosso país. Parabéns!
    Beijos
    Maria Antonieta.

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